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sábado, 16 de maio de 2015

domingo, 3 de maio de 2015

Entrevista

Osmar J. Santos


- Com letra maiúscula afastada da margem - respondi.
Era um dia quente e confesso não ter paciência em dias quentes.
Naquela mesma manhã, já havia: acordado atrasado, percebido que não havia queijo na geladeira e recebido multa de trânsito. Não fico feliz quando recebo multas de trânsito. Tampouco quando o queijo acaba. Quando acordo tarde sim, pois não gosto de acordar cedo...
Não foi das melhores manhãs. Aliás, manhãs nunca serão melhores que tardes e tardes jamais serão melhores que noites...
Poderia ter começado com uma pergunta criativa mas, para minha surpresa, preferiu perguntar:
- Como você inicia seus textos? 
Pois bem. Convido o leitor a voltar à primeira linha (foi aquela a minha resposta). 
"Perguntas sem criatividade merecem respostas irônicas", li uma vez num livro empoeirado em cima da estante.
Apesar de tudo, em nome da continuação da entrevista, fiz uma expressão de riso e falei (ou apenas pensei em falar) algo do tipo "é só pra descontrair" e passei a comentar sobre a criação do texto. 
Apesar da pergunta sem criatividade, do dia quente, da multa de trânsito e do queijo que tinha acabado, estava disposto a continuar. 
Concluí minha fala e esperei pela segunda pergunta. 
Estava certo de que seria melhor que a primeira. Certo de que não seria pior, pelo menos. Mas como toda certeza é tola, toda certeza é burra (e peço, caro leitor, que não me pergunte se tenho certeza disso), fui outra vez surpreendido: 
- E para terminar o texto, como você faz? - perguntou.
Ele conseguiu. Como eu já lhe havia concedido uma segunda chance, fiquei à vontade para furtar-lhe uma possível terceira. Respirei fundo, fechei os olhos e lembrei novamente daquelas palavras que pensando bem, não li num livro empoeirado (sou alérgico à poeira). Ouvi na fila da padaria certa vez (ou foi na recepção de uma clínica? Não lembro...).
De forma mais irritada que impulsiva, respondi:
- Coloco um ponto final e pronto.
Ele ensaiou um sorriso que aos poucos foi desfazendo-se. Devo dizer que dessa vez não houve nada em minha expressão que indicasse que não falava sério.
Sem mais perguntas, a entrevista foi encerrada.

Post scriptum - Eu fiz pipoca mas a entrevista não foi ao ar no dia marcado.